MÉXICO

Xayaklan, Santa María Ostula: "Daqui ninguém nos tira"

 
Este artigo questiona processo de chegar à histórica recuperação de terras indígenas na Sierra Nahua do estado de Michoacán, México o 29 de junho de 2009 e descreve a situação actual da nova comunidade de Xayakalan. Escrito após uma recente viagem a Xayakalan, o artigo contém uma entrevista com um dos impulsionadores da recuperação.

A recuperação de 1300 hectares de terras nahuas em Xayakalan, Santa María Ostula, em 29 de junho de 2009, foi um dos eventos mais impressionantes dos últimos anos. Mas como o conseguiram? Na semana passada tive a oportunidade de tirar algumas dúvidas.

Ao chegar a Xayakalan com dois amigos uma tarde ensolarada, o encarregado da segurança não demorou em ver que éramos gente de confiança e nos ensinou uma área onde podíamos acampar.

––E como vai tudo por aqui?

––Pois podem ver, aqui estamos. Estamos há um ano e meio aqui e ninguém se vai. De aqui ninguém nos vai tirar.

No caminho desde Lázaro Cárdenas tínhamos visto uma camioneta depois de outra de poliais? Militares? Narcotraficantes? Portando armas de grosso calibre ––um reflexo da guerra contra a sociedade desatada pelo governo de México sob ordens dos Estados Unidos. Mas apesar das constantes ameaças contra a comunidade de Xayakalan, o ambiente era dos mais tranquilos. As pessoas sempre alertas e vigiando, mas tranquilas.

As primeiras pessoas que conhecemos eram as equipes da guarda que andam ao longo da praia e pelas montanhas com suas escopetas, machetes, paus e um que outro rifle AK-47 precisamente para assegurar a ausência de violência. Já estavam informados que tínhamos vindo em apoio, mas mesmo assim nos perguntaram de novo quem éramos e nos informaram das áreas seguras e também das áreas disputadas que devíamos evitar.

“Ainda estamos em conflito”, disse um jovem da polícia comunitária. “Há interesses que nos querem tirar daqui. Temos tido muitas ameaças”.

Conhecemos um casal e suas três filhas. São umas das muitas pessoas de Michoacán que têm ido ao outro lado a trabalhar, mas agora estão de regresso e têm sua pequena loja de mantimentos próxima da praia. Perguntamos a Martina:

––Que significa Xayakalan?

––Lugar dos dançantes com máscara.

––E por aqui dançam?

––Sim, nas festas.

Averiguamos que isto antes era o prédio La Canahuancera. Os caciques de La Placita tinham-no roubado há mais de 40 anos mas quando os comuneiros o recuperaram lhe puseram seu nome original. Xayakalan é uma dos povoados de Santa María Ostula na Sierra Nahua do estado de Michoacán. Há 22. Ostula é a cabeceira e o município é Aquila.

Durante vários dias tivemos a oportunidade de caminhar na praia, nadar no mar, escutar as ondas, e enfrentar mosquitos sedentos. Um amigo levou um projetor, de modo que às noites vimos filmes, rindo com os meninos e meninas. Algumas pessoas convidaram-nos a passar por suas casas a tomar um cafezinho ou comer um "taquito" e conversar. Inevitavelmente a conversa leva-nos aos eventos desse memorável dia 29 de junho de 2009. Os detalhes podem mudar pouco ou muito mas o que não mudam são os sorrisos de orgulho e a certeza de terem feito o correto.

Um entardecer estava eu sentada em um tronco vendo o pôr do sol quando o jovem Iturbide se deteve a conversar. Levava por seu ombro uma rede.

––De onde vens?

––Do D.F. Vais pescar?

––Sim. O sol vai se pôr e nestas horas a pesca é boa.

––Vives aqui em Xayakalan?

––Sim, desde 29 de junho.

––Ah, vieste com os demais nesse dia?

––Sim, como não.

––O que vocês fizeram não se faz em qualquer dia. Foi tremendo. Como o conseguiram?

––Pois alguns levaram vários anos até isto. Lembro-me que muitos sentimos nojo quando os de La Placita puseram letreiros nos proibindo atravessar nossas próprias terras. Nós não vivíamos aqui naquele tempo, mas me lembro que alguns falaram de vir. Talvez se foi preparando há uns cinco anos, não sei.

––Parece que tudo estava muito bem organizado.

––Sim, é verdade, e naquele dia uns chegamos por ali, outros por lá, alguns estavam na praia, outros na montanha, outros bloqueando a estrada. Éramos milhares! Chegamos das várias "encargaturas" de Santa María Ostula. Chegou gente de Coíre e Pómaro. Nahuas de toda esta região. E quando dispararam contra nós nossa polícia comunitária os pôs a correr!

No seguinte dia os meninos Oscar e Alex e o jovem Gabriel chegaram à enramada para conversar e compartilhar uns cocos. Gabriel subiu na palmeira como um homem-arranha, cortou uns oito cocos ternos e os abriu com seu machado. Pensávamos que estava os cortando para levar a sua família mas disse que não. “Estes são para vocês, porque agradecemos muito seu apoio”.

––Todos os jovens de aqui aprendem a fazer isto?

––Pois, sim, quase todos.

––Qual é o segredo?

––Ter boa musculatura. Se és gordo, não o podes fazer.

Gabriel confirmou que sim, a recuperação foi bem planejada: “Mas não sabíamos exatamente qual dia ia ser. Depois inteiramos-nos que os invasores estavam loteando terrenos na praia. Com isso, a manhã do dia 29 os encarregados de cada povoado se reuniram e se foram avisar sua gente. Alguns chegaram mais ou menos rápido e outros que vivem nas comunidades mais retiradas demoraram um pouco. Nesse dia eu estava por aí e veio voando o Cherokee cinza com pistoleiros disparando. Mas quando revidamos os tiros, se foram. Foi estranho. Acho que nós realmente não estávamos atirando para os matar. Talvez eles também não. Não sei. O que queríamos era que se fossem daqui. E se foram”.

Vemos que há muita atividade na comunidade e várias mudanças importantes. Tão cedo que ocuparam suas terras, os "comuneros" construíram 20 casas de tijolos e adobe em cinco dias. Agora há pelo menos 40 e estão construindo mais.

Durante vários meses não havia luz nem água, mas agora sim. A meta é ter água encanada em cada casa.

A menina Rosa chegou a visitar-nos um dia e nos falou de sua escola. Esta se pôs caminhar nos primeiros dias. Agora há três escolas ––uma para os penquenos, outra para as 2ª, 3ª e 4ª séries e outra para a 5ª e 6ª.

No seguinte dia o colega Pedro levou-nos a visitá-las. Encontram-se em uma zona um pouco afastada do centro do povoado. Conta-nos que vão ampliá-las e vai ter um albergue para que os estudantes de outras povoações de Ostula possam assistir às aulas em Xayakalan.

Pedro também nos leva a ver o pomar onde estão semeadas umas quatro mil plantas no meio de árvores de tamarindo, manga e jamaica. A infra-estrutura de irrigação instalada pelos pequenos proprietários é útil, mas mesmo assim os "comuneros" têm enfrentado vários obstáculos, inclusive uma bomba que ficou quebrada durante uns meses por falta de dinheiro e uma praga de gafanhotos. Por falta de um trator, todo o trabalho se faz com machetes. De fato, um trator é uma das grandes necessidades da comunidade.

Pedro explica um pouco mais do processo de organização: “A coisa é que este não foi a primeira tentativa para recuperar nossas terras. Houve tentativas por vias legais e políticas, mas não nos serviram para nada. Vimos que não podíamos confiar em nenhum partido político, em nenhum político. Teríamos que o fazer nós mesmos. Mas nem todos estavam de acordo. Alguns disseram, ‘Não, se vou com vocês me matam. Estão loucos'. Houve muito medo. Muito medo. Demandou muito esforço para convencer à maioria dos "comuneros". Até agora há quem não esteja de acordo. Alguns se vão pela atração do dinheiro fácil, pelo negócio do narcotráfico, da mineração. Alguns já se venderam. Mas a maioria está de acordo conosco. Para conseguir isto Trompas foi à cada "encargatura" (povoado) de Ostula para convencer a todos a unir ao esforço. Logo o assunto chegou à Assembleia Geral e a Assembleia fez-se permanente. Houve reuniões constantes durante vários meses. Por fim a maioria convenceu-se. Quando viemos no dia 29 de junho os pequenos proprietários começaram a disparar e nós nos defendemos. Devido ao tiroteio era impossível que todos chegássemos ao lugar. Umas mil pessoas entraram e outras quatro mil estavam bloqueando a estrada e tomando posições em outros pontos. Seus pistoleiros feriram um dos nossos, Manuel Serrano, e nós ferimos a uns quatro dos seus. Em fim, eles se foram e nós ficamos. Aqui estamos. Após do dia 29 todo mudou. Antes, nossas vidas não valiam nada. Sempre nos humilhavam e nos maltratavam. Mas já não. Perdemos o medo. Ainda há conflito. Ainda não ganhamos o reconhecimento. Mas perdemos o medo e aqui estamos cuidando nossas terras.”

O companheiro Trompas está disposto a dar uma entrevista e me chama às 8 da manhã do dia seguinte. Ainda não tinha dormido após ter assumido seu turno de guarda a noite anterior, mas tem vontade de conversar.

––Companheiro, que é que os levou a recuperar as terras?

––Alguns de nós tínhamos almejado desde há muitos anos, e alguns já o tinham tentado no judiciário e com os políticos, mas não nos ajudaram em nada. Os que nos fizeram coisas ruins são os partidos políticos. Não conheço essas coisas por dentro, mas vi a injustiça que nos estavam fazendo.

––E o governo?

––O governo fez-nos uma coisa que não se pode consertar hoje. Ele sujou a água, toda. Agora quer que nós a limpemos. Nós temos o primeiro título [dessas terras]. Mas há cem anos o governo deu parte de nossas terras comunais a uns cinco pequenos proprietários e depois em 1967 deu-lhes um "ejido" (título). Nós temos nossos documentos mas um lote se sobrepõe ao outro. Talvez “os pequenos” tenham amigos influentes. Nós não. Nosso melhor amigo é o título primordial. Quando chegamos em 29 de junho, ainda ninguém vivia aqui. Tínhamos tentado fazê-lo mas o governo é muito escorregadio. O governo disse: “Eu vou resolver isto. Retirem-se. Eu vou resolver isto”. Saímos. E o que resolveram? Não resolveram nada. O governo não se preocupa conosco. Nada, nada, absolutamente nada. Pois até agora não recuperamos todas nossas terras. Faltam 800 metros. E pois, vamos brigar com o governo também. Não recebemos nenhum apoio dele. Nem sequer pedimos aos do governo que venham a fazer as ruas. Não. Somos autônomos.

––Quantas hectares recuperaram? Ao princípio disseram 700 e depois disseram 1.300.

–– Recuperamos 1.300 hectares. Os engenheiros equivocaram-se na medição. Ao princípio disseram “são 700 hectares”. Mas dissemos ao advogado, “Não, não são 700 hectares. São 800 metros desde lá até aqui o que estamos deixando. Não, recuperamos muito mais. Então voltaram-no a medir e sai que são 1300. Mas nós não queremos medição. Nós queremos reconhecimento da posse. Porque o título primordial está aqui, aqui, lá, lá. Então em 29 de junho chegamos, e alguns duvidavam aonde chegaríamos. Mas nós não duvidávamos porque de antemão sabíamos. Nossos avós, nossos pais disseram-nos que até lá chegaríamos. E nós não duvidávamos. Sempre o soubemos.

––Qual era a situação em 2009?

––Em 2009 havia muita pressão sobre as terras. Queriam-nas, e ainda as querem, os hoteleiros, os narcotraficantes, as empresas de mineração. Haviam muitos interesses. Os políticos dos vários partidos estavam comendo de aqui. Amigos dos pequenos proprietários. Amigos com os ocupantes daqui. Talvez lhes davam um pedacito de queijo. Talvez uns 10 ou 20 pesos. Ou mais [risos]. Já não tínhamos onde trabalhar aqui. Quando éramos poucos, éramos poucos, mas agora somos muitos. Tínhamos pedacinhos de terra e muitos estavam querendo outros mas a coisa já estava fechada. Todo isso estava acontecendo ainda antes de 2009. Já em 2003, os pequenos proprietários de La Placita tinham posto avisos dizendo "passagem proibida” e que nós, os indígenas daqui de Ostula íamos ser mortos se caminhássemos em nossas próprias terras. Depois, em 2009, estavam loteando as terras, vendendo lotes. Foi quando não pudemos esperar mais.

––Como organizaram a recuperação de terras? O companheiro Pedro disse-nos que você foi pessoalmente a todas os povoados para convencer as pessoas a fazê-lo. São muitos, não?

––Sim, uns 22. Ostula é a sede. Tem umas 7,000 pessoas que vivem nos vários povoados. Sim, fui a todos. Nem sempre ia só. Custou-nos bastante mas está valendo a pena. Tivemos que dizer o que estava se passando e o que devíamos fazer. O que eu lhes disse? Lhes dei um exemplo: Suponha que eu estou aqui e venha alguém de Colima ou Manzanillo ou Uruápan e diga, “Hei camarada, sai que eu gostei daqui. Vai saindo porque gostei de tua casa e gosto deste local onde vives”. “Assim?” Assim fácil vão me pôr para fora? E não vou fazer nada? Vou sair? Disseram isso a vocês, se vão? Não é verdade? Vejam, o mesmo se passou conosco. Pois vamos recuperar o que é nosso.

“Depois quando não tínhamos por onde trabalhar, lhes disse: ‘Vamos-nos lá.’ E dessa maneira já andamos povoado por povoado. Alguns diziam: ‘Sim, têm muita razão’. Outros dizem: ‘Não. Vão nos matar’. Outros dizem: ‘Assim resolvemos’. Até que chegamos à Assembleia Geral [que transcorreu] durante uns três meses. E ali decidimos. Mas estávamos nisto há mais de um ano”.

“Aqui tenho um papel com data de 16 de novembro de 2008 assinado por 41 pessoas que estavam de acordo em recuperar as terras. Depois fomos agregando mais assinaturas, 60, 100. Pusemos-nos de acordo: Não vamos em troca dinheiro. Vamos pela terra. Vamos recuperar o que é nosso. Não temos interesse em brigar, mas se eles quiserem não nos vamos deixar. Mas nesse dia foi que começamos a organização para virmos aqui”.

––Como se organizou a polícia comunitária?

–– A polícia comunitária planejamo-la um pouco depois porque dissemos: “Se o presidente municipal não nos ajuda que fazemos?” Não quis. Por isso, lhes disse: “Tudo bom se nós nos armamos pois por assim o dizer uns cinquenta homens que é nossa polícia comunitária?” Quando estávamos de acordo falamos com um advogado e lhe dissemos: “Queremos fazer isto, assim assim e assim”. “Ah”, disse, “está bem. A polícia comunitária é boa”. E sim, sim armamos-nos. Já tínhamos o povoado, seu servidor pois, e depois a polícia comunitária entre todas os povoados em 2008 após o que nos juntamos para nos organizarmos. Então formou-se [a polícia comunitária]. Formamo-la e prosseguimos adiante, todos.

“Tínhamos 300 polícias comunitárias e a verdade, e aqui estávamos todos juntos. E Coíre ia mandar-nos 200. E Pómara não sei quantas, mas iam cooperar. São comunidades indígenas ou comunidades irmãs. Apoiaram-nos desde o princípio”.

––Que tipo de apoio têm tido de outros grupos?

––Pois, quando o senhor comandante Marcos passou por estas terras em 2006, sua caravana se deteve em Ostula e ele nos apoiou. Eu não estive aqui mas sempre temos estado em contato com eles. Depois justo antes e justo após a recuperação o Congresso Nacional Indígena reuniu-se aqui. Em 13 e 14 de junho fizemos o Manifesto de Ostula que apoia o direito dos povos indígenas à autodefesa. Depois em 9 de agosto fizemos a Declaração de Xayakalan onde dizemos que defender o território é defender o povo e que a autodefesa não se negocia. Isto foi um apoio muito importante porque representa muitos povos e comunidades indígenas. Estiveram aqui conosco.

––Que se passou no dia 29?

––No dia 29 nós entramos, os policiais e todos ––homens, mulheres, meninos, meninas––umas cinco ou seis mil pessoas de Ostula. Quando viemos eles dispararam primeiro. Feriram um dos nossos e vários deles ficaram feridos. Primeiro eles tinham chegado ali adiante, os supostos proprietários de La Placita. Talvez sabiam dos nossos planos. Então dissemos às pessoas: “Pois agora estão aí”. Então todos juntaram-se e disseram “Pois agora que estamos aqui vamos”. “Vamos pois”. E sim fizemos. Dispararam. Eles mesmos ou seus pistoleiros. Mas não adiantou para eles. Imediatamente foram embora em seus carros. Foram-se. Chegamos e nos posicionamos. E aqui estamos”.

“Sim, tínhamos tudo bem planejado. Construir casas era parte do plano. Tínhamos os materiais e tudo. Construímos 20 casas em 8 dias. Nas mesmas datas bloqueamos a estrada durante 15 dias. Chegou muita gente de outras partes de Michoacán e de Colima para ajudar.”

––Como é a vida em Xayakalan agora?

––Vivemos tranquilos mas o conflito ainda não se resolveu. Temos assembleias aqui. Aqui opinamos. Aqui decidimos o que vamos fazer. Aqui ninguém se irrita. Todos estamos dispostos no que estamos fazendo. Não estamos aqui para brigar. Não, não, não, não, não. Mas se eles quiserem, reagiremos. Há muito trabalho agora. Temos muito trabalho cooperativo pois não temos nada, e se queremos ver as coisas mais organizadas devemos trabalhar, não? Estamos semeando e trabalhando as terras. Seguimos construindo casas. Agora temos 50 e há outras 50 famílias que querem vir. Estamos pondo muito ênfase nas escolas. Queremos instalar uma rádio comunitária. Eu tenho ido três vezes com os companheiros da Rádio Ñomndaa em Guerrero e gostamos muito do que estão fazendo. Talvez aqui façamos algo como fizemos en La Ticla. Eu vivi ali no início dos anos 60, e quando cheguei ali as terras estavam virgens. Alguns não tínhamos lotes e começamos a cultivar os lotes de pessoas que não as trabalhavam. Tivemos que discutir sobre isso e exigir nosso direito à água, mas em fim as terras se voltaram muito productivas. Quando resolvamos o conflito aqui vamos poder fazer algo parecido. Temos estado com o governo federal e do estado e dissemos-lhes que estamos aqui e quem nos ia sacar. Acho que se descuidou pois, verdade? Godoy também se anda escondendo de mim. Godoy não nos ajuda em nada. Mas sim quis o voto para jogar-nos abaixo. Teve uma votação no ano antepassado. Não votamos. Nos aferramos em não votar. O que ganhamos dele? Então para que [votar]? Estaremos dizendo o mesmo na próxima eleição. Seguimos exigindo que reconheçam que as terras são nossas e que reconheçam nossa polícia comunitária.

–– Que tipo de repressão e hostilidade enfrentam? Falam muito da violência narco-paramilitar contra vocês, e de um bom número de assassinatos e desaparecimentos.

––Em Xayakalan não temos tido nenhum assassinato nem desaparecimento, ainda que a morte do professor Diego seguramente estava relacionada com nossa luta. Ele estava muito de acordo com a recuperação. Mas isto foi em 2008 dantes da recuperação. Em Ostula sim, tem havido muitas mortes e várias pessoas desaparecidas, mas a maioria não está relacionados com a luta pelas terras. O comissariado, Francisco de Asis Manuel quis começar a trabalhar uma mina. Nós não queremos isso. Javier Martínez não estava de acordo em vir aqui. Era um político. Era secretário do comissariado. Era funcionário do presidente municipal. Desapareceram com ele em Aquila. O professor Gerardo também desapareceu por estar junto com ele. Sentimos muito pelo professor.

––Então os narcotraficantes não se meteram aqui?

––Os narcotraficantes tentaram entrar em Xayakalan mas não o fizeram. A bem da verdade, aqui não se sabe quem é do governo e quem é do narcotráfico. Se ele vem com um gorro na cabeça, é uma autoridade ou narcotraficante, quem é? Não sabemos. Pois vêm encapuzados os narcotraficantes e vêm encapuzados os do governo. Como sabemos qual é o bom?

––Há ameaças?

––Aqui, pois já temos muitas ameaças. Muitas. Que pouco depois nos chegam. Que pouco depois vêm. Que pouco depois amanhã e que tal dia. Pois não, não tem chegado nesse dia. Será pois, não sei. Pois como queiram, nós os esperamos.

––E os militares nunca se meteram aqui?

––Uma vez mandaram o pessoal da marinha. Desarmaram-nos. Tomaram uns rifles, umas escopetas, umas pistolas. Mas todos estávamos aqui. Eu e vários outros estávamos em La Ticla em uma assembleia lá. Avisaram-nos que o governo nos estava desarmando. Ah, bom. Pegamos as camionetes e vemos. Ah, em pouco tempo estávamos aqui. As pessoas os tinham cercado. Estamos falando de cinco ou seis mil pessoas.

“Devolvem-nos nossas armas ou não saem daqui”.

Não queriam devolver as armas porque pensavam que iam matá-los.

”E por que se meteram? Quem lhes mandou vir?”

“Ninguém.”

“Pois devem nos entregar as armas”.

Quando nós chegamos já lhes tinham entregado as armas.

“Quem nos garante que nos deixem ir?”

“Eu estou dizendo que os vão deixar ir”.

Depois saíram-se e não se meteram.

––E os polícias?

––Há pouco tempo quiseram vir os policiais federais. Perguntou-lhes uma pessoa na entrada: “Que querem?”

“Queremos ver o encarregado da ordem”.

“Ele já vem. Vocês não podem entrar. Não têm permissão para entrar”.

“Não vamos desarmar ninguém”.

“Não importa. Aqui não há permissão. Mas vou buscar o encarregado da ordem”.

Chegou Pedro.

“Vimos porque aqui em La Placita disseram-nos que vocês ameaçaram um e que lhe atiraram contra outro”.

“Nós? Disseram isso?”

“Sim”.
“Quantas coisas não vão dizer? Muitas coisas têm dito sobre nós que não fizemos. O que eles querem é que vocês se criem inimizade conosco. Mas nós não lhes fizemos nada. Que comprovem. Tragam essas pessoas. Para que se veja se é verdade. E que diga qual deles foi. E quando foi”.

Não se meteram.

––E nenhum polícia meteu-se desde então?

–– Tentaram. Uma vez encontrei-me com a gente do ministério público federal de Morelia aqui em La Ticla. Foi no dia 24 de abril. Eu saí caminhando. Passou um automóvel. Depois outro. Teve oito camionetes. Falou-me o primeiro adiante.

“Venha”.

“O que desejas?”

“Como te chamas?”

“Fulano de tal”.

“Onde vives?”

Saca seu notebook.

“Anteriormente vivi aqui em LaTicla, depois na Duín. Agora vivo em Xayakalan”.

“Ah, tu és um desses de Xayakalan”.

“Sim”.

Desce do caminhão. “Posso perguntar-te algo?”

“Sim, e com quem falo?”

“Sou agente do Ministério Público federal”.

“Ah”.

“Onde trabalhas?”

“Olha, no momento não tenho emprego. Acabo de sair de um. Eu era o encarregado da ordem quando chegamos a Xayacalan”.

“Quantas polícias tinham quando chegaram a Xayacalan o 29 de junho”?

“Umas 300. Agora há 400”.

“Tu eras o encarregado da ordem. Eras o chefe da polícia comunitária?”

“Pois já disseste”.

“E a onde vais?”

“Aqui à festa da Santa Cruz”.

“Posso conversar contigo em outro dia?”

“Terias que perguntar por mim ao chegar à porta de Xayakalan. Mas não os vão deixar entrar”.

“Têm armas”?

“Com que se defende em uma guerra? Com armas, pois. Então tua pergunta? Que achas? Eu sei que tu és meu inimigo e não vou buscar me defender? Vou encontrar-me contigo. A ver…”

“Pois, tens razão”.

––Qual é a diferença entre a polícia comunitária e a guarda?

––É o mesmo. Muitos pensam que agora não temos guarda, mas sim temos guarda. Ontem à noite veio um pela praia, e aqui o agarraram. Talvez não se expressou bem. Falaram comigo em Ostula. Que veio um senhor de Tecomán. Vinho a pé para pagar uma manda à Virgem de Guadalupe aqui em Ostula. Há uma imagem da Virgem quase igual à da Basílica e vem muita gente pagar sua promessa, muita gente. Pois esse senhor disse que veio a pagar a promessa, mas eram 2 da manhã. Tu achas que a essa hora estava fazendo isso? Então agarraram-no e perguntaram-lhe que andava fazendo e por que, e lhe disseram: “Não podes passar aqui. Se vais para lá, não saias”. Pois acho que deram-lhe uma chance de pegar a estrada. E em Ostula ele disse: “Pois lá está muito perigoso. Saíram-me uns 10 homens bem armados”.… Verifiquei com a guarda e disseram que sim, que passou por aqui e disse que ia pagar uma promessa. Mas não que lhe quiseram revistar a mochila para ver o que trazia, e como não deixou foi quando o pressionaram mais. E por isso que te digo que temos nossa guarda. Às vezes estão aí descansando, mas estão por aí de todo o modo.

––Que tipo de apoio precisam?

––O que nós precisamos deveras deveras, o que precisamos é um trator.

––Têm número de conta bancária?

––Não. Não há número de conta bancária. Podemos responder. Temos umas palmeiras e umas mangas. Mas faz falta que alguém venha e diga: “Eu te compro o coco, eu te compro a manga”. Há tamarindo. Agora não vendemos porque ainda há conflito. O governo não nos reconhece. Temos muito milho e muito arroz. Muita gente apoiou-nos e tem ajudado. Alguns têm dito que nos vão ajudar a instalar uma rádio comunitária. Oxalá que seja assim porque nos faz muita falta. Por todo o apoio que temos recebido estamos agradecidos. Agradeceria a todos que nos vêm visitar—que não nos esqueçam, que nos visitem. Bem-vindos todos os que venham nos apoiar.

Estando em Xayakalan não quisemos sair. Aí respira-se outro ar ––um que nos traz umas pistas sobre como se podem fazer as mudanças radicais que nos fazem falta. Por isso nos sentimos muito agradecidos e também pela generosidade das pessoas que fezem questão de nos presentear todo um grande cesto de cocos para levarmos de regresso à grande cidade. Até agora estamos com água na boca.

29 de janeiro de 2011

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Xayakalan

Carolina 01.Feb.2011 05:59







fotos

Xayakalan

Carolina 01.Feb.2011 06:00







Xayakalan, Santa María Ostula: “De aquí nadie nos va a sacar”

viva xayakalan!

alpinelakes 02.Feb.2011 23:17

Thanks for posting this. Keep posting it everywhere.

There's somebody with a tractor out there somewhere...

For an in depth look at the Nahuat culture of Ostula, look here:

 http://jg.socialsciences.manchester.ac.uk/Ostula/index.html

If you're going to visit the coast of Michoacán, check out my maps:

 http://home.comcast.net/~alpinelakes//Coast_of_Michoacan/coast_of_michoacan_map.html

save the grapefruits from the chemical pesticides and fertilizer

aaa 18.Feb.2011 04:19

shutdown the bordello's and the resupply of alchohol and chemicalized cigarettse

Si, Peasants build organic Agricultural Communes, not Prisons.

Jose' 21.Feb.2011 19:26

Perfect way to go back to the land and build community. Any govt. that is democractic as collective agree to serve the peoples would congratulate these Peasants, and provide for their needs.

To move against them is a war crime, and stipulated so in the Geneva Conventions of War, (1949) and the Nuremburg Trials (1945-46) Which says that the planning and doing of aggressive war is the supreme international crime on earth, as it actuates all other crimes high, low, big and small. That is the international law written from the anti-fascist side.
The liberation side of the peoples set the goal of ending aggressive war as foreign policy, and set the new standard as collective agree as democracy to settle disputes between nations.

asdf

asdfxc 28.Feb.2011 07:10

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radio

llosh 25.Apr.2011 20:58

(mi espanol es mal. voy escribirlo en espanol y english)
Soy de califoria y estoy viajando en mexico con el mision de conociendo y ayudando las movimientos de libirtad. Tengo una transmisor de radio que quiero regalar a Xayakalan. Pero, falta la antenna, y otro equipo para hacerlo. Estoy buscando contactos de colectivos de medio radical o grupos como esto (tal ves los "han dicho que nos van a ayudar a poner una radio comunitaria"). Contactos de la autor y Xayakalan son muy util tambien. Necicito ayuda con haciendo una antenna, ensenyando las DJ´s, transportando el equipo, y cosas como eso. Gracias para la ayuda.

Im from californa and im traveling in mexico with the mission of understanding and helping liberation movments here. I have a radio transmitrer that i want to give to Xayakalan. It still needs an antenna and other equipment. Im looking for contacts of radical media collectives or any group that can help with building an antenna, seting up the station, and teaching people how to use it (like the group mentoned in the article). Contacts of the author and Xayakalan would be useful also. Thanks for any help.